domingo, 2 de julho de 2017

ARTIGO - Temer precisa renunciar

Por Arnaldo Jordy

Pela primeira vez na história da República brasileira, temos um presidente denunciado criminalmente por atos de corrupção cometidos no exercício do mandato. Isso bastaria para que Michel Temer tomasse a decisão de renunciar para abreviar a crise, afinal, o próprio presidente declarou há meses que ministros denunciados na Lava Jato teriam que renunciar. Agora, o próprio presidente foi atingido, mas ao contrário do que afirmou, promete resistir, junto com seus ministros, muitos deles na mesma situação.

O cenário que se anuncia é o de um grande esforço do governo para barrar no Congresso as denúncias feitas pela Procuradoria Geral da República, com manobras para garantir a nomeação de um aliado como relator na Câmara e a substituição de membros da Comissão de Constituição e Justiça que não sejam favoráveis a Temer.

A denúncia da PGR diz que os R$ 500 mil entregues ao ex-deputado Rodrigo Rocha Loures seriam parte de uma grande propina de R$ 38 milhões que seria paga ao próprio Michel Temer, em troca de favorecimento à JBS no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). As parcelas seriam pagas semanalmente. Já se sabe que não houve qualquer edição nos áudios apresentados pelos delatores à PGR, conforme perícia detalhada feita pela Polícia Federal, que desmontou a tese de edição ou montagem na gravação. A PF afirma ter "provas abundantes" contra Temer, entre elas, a delação de sete executivos da JBS, a indicação de Loures para resolver qualquer pendência e a imagem do ex-deputado Loures correndo com a mala recheada de dinheiro. Novas provas devem ainda surgir a partir de delaçôes que se anunciam, como a do doleiro Lúcio Funaro, que operava propinas para o PMDB e agora está preso, e do próprio ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também atrás das grades, mas ainda que parece continuar a influenciar o governo. Será mais combustível jogado na fogueira da crise.

Os áudios também deixam clara a tentativa de proteger o perigoso Eduardo Cunha, para que ele não delate seus parceiros de crime, o que poderá resultar em uma segunda denúncia, esta por obstrução da Justiça. Uma terceira denúncia também é tida como inevitável, a ser formulada pela PGR, agora de formação de quadrilha. Tudo resultado de intensas investigações da Polícia Federal, cuja perícia na gravação de Joesley Batista com Temer revelou novos diálogos, como aquele no qual Temer convida Joesley Batista a entrar no Palácio Jaburu "sempre pela garagem", para evitar o testemunho da imprensa. Diante de tudo isso, a PGR pede a condenação de Temer por corrupção passiva, com perda da função pública ou mandato eletivo e indenização aos cofres públicos de ao menos R$ 10 milhões por Temer e R$ 2 milhões por Loures.

O fato é que Michel Temer não tem mais condições de continuar a governar o Brasil. Infelizmente, ele jogou fora a oportunidade que teve de conduzir o País até as eleições de 2018 de forma democrática e transparente, num momento em que a economia começava a dar sinais de recuperação da crise que veio do governo anterior, comandado pelo PT, o mesmo que agora, por mais que no discurso peça a saída de Temer, no fundo espera que ele permaneça no cargo para "sangrar" até as eleições de 2018. O PT se comporta diante da crise como se nada tivesse a ver com ela, o que não é verdade. Ainda que não declare, o partido tem interesse no enfraquecimento do governo e se aproveita da mesma indignação com a corrupção que o tirou poder. Os ataques que agora se acentuam contra a Operação Lava Jato já eram esperados, à medida que ela avança contra o núcleo do poder deste e de governos anteriores, mas não podemos perder a oportunidade de sanear a política brasileira e de rever seus métodos promíscuos de ligação com a iniciativa privada. Um novo Brasil deve surgir após esse trauma que são dois governos derrubados pela corrupção em dois anos seguidos.

O Brasil precisa urgentemente sair da crise que deixa 14 milhões de pessoas desempregadas, precisamos de reformas estruturais urgentes no país, e Michel Temer não é o nome adequado para fazer essa transição até 2018, quando poderemos escolher pelo voto direto o novo presidente. O custo para conseguir os votos necessários na Câmara para barrar as denúncias de Janot será a paralisia do governo para tocar outras agendas que não a própria sobrevivência política de Temer. À medida que seu capital político se enfraquece, as reformas ficam mais distantes. A reforma da Previdência, por exemplo, precisa de uma discussão detalhada de cada ponto, para que não se cometa injustiças contra os mais desprotegidos, e não deve ser aprovada de afogadilho.

A permanência de Temer atrasa a recuperação econômica do país, tanto que no dia seguinte à denúncia contra o presidente, as projeções para o PIB feitas por instituições financeiras internacionais para este e para o próximo ano caíram. Quanto mais demorada for a transição, maior será o prejuízo. Temer, porém, parece sofrer da síndrome de Chantecler, o galo da fábula francesa de Edmond Rostand, que tinha certeza que era seu canto que despertava o Sol todos os dias, até que em uma certa manhã, acordou tarde e viu que a aurora não dependia dele. Da mesma forma, a recuperação da economia não depende de Temer, como ele tenta fazer crer, mas acontece apesar dele e seria mais rápida sem ele.

Artigo do deputado federal e líder da bancada, Arnaldo Jordy (PPS/PA) publicado nesta sexta-feira, 01, em Jornal O Liberal.


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