sábado, 13 de junho de 2015

A necessidade de um programa de esquerda para a segurança

Os principais problemas das polícias no Brasil estão identificados. Também as soluções são claras: desmilitarização, implementação do ciclo completo e criação do cargo único. Contudo, do ponto de vista prático, vários são os desafios e as resistências a serem superados. O tema é considerado um "vespeiro" pelos governantes

De pronto, deve-se descartar a ideia da unificação das polícias civis e militares
Foto: Brigada Militar

A polícia surge no Brasil, como em todo o mundo, com o papel de preservação daquilo que se pode chamar, num plano muito geral, de “ordem pública”. A despeito de no passado terem lhe sido reservadas atividades que hoje soam esdrúxulas como o zelo do espaço público (iluminação, calçamento etc.), transparece desde sua origem a proeminência de sua função de controle sobre a sociedade, notadamente sobre as camadas mais populares. Isso porque o que é considerado “normal”, o aceitável, o desejável, geralmente é definido pelo conjunto de indivíduos ocupantes do ápice da pirâmide social. Esse fenômeno toma, em países histórica e profundamente marcados pelo patrimonialismo1, como é o caso do Estado brasileiro, contornos assaz drásticos, com os inerentes reflexos sobre a atuação de suas polícias, acompanhando-as ainda na atualidade.

Entre a vinda da família real2 e a Constituição de 1988, a evolução dos órgãos policiais no Brasil vivenciou movimentos pontualmente paralelos, quais sejam, os processos de especialização e militarização, em meio à prevalente submissão ao poder central (à corte imperial ou à União federal), entremeada por eventuais períodos de relativa autonomia concedida às províncias, estados-membros e municípios.

O advento do golpe militar de 1964 parece trazer o momento de maior ascendência do poder central sobre a estrutura das polícias, valendo citar, como exemplo, o fato de que todos os postos de comandantes das polícias militares eram ocupados por oficiais do Exército3. Foi criada a Polícia Federal, que aliada aos serviços de informações das Forças Armadas, das próprias polícias e ao Sistema Nacional de Informação (SNI), além de outros entes, tinha agora também como atribuição o combate ao “inimigo interno” representado pelas forças de resistência ao regime.

A estruturação geral existente nesse contexto não fez senão, obviamente, aprofundar o já vigente viés das polícias enquanto braços armados a serviço do governo e de seus apoiadores nas funções de manutenção da ordem e controle social.

Chega a redemocratização, e a Assembleia Nacional Constituinte não promove – não só por pressões corporativas, mas sobretudo pela ação de grupos hegemônicos interessados na perpetuação da lógica narrada, que bem lhes servira – nenhuma mudança de fundo na formatação herdada do regime militar.

Assim, hoje temos como base de nossa estrutura de segurança o plexo Polícia Civil/Polícia Militar aliadas a polícias especializadas (Federal e Rodoviária Federal)4 e a crescente importância das guardas municipais, instituições às quais foi recentemente conferido poder de polícia. Isso para não mencionar os mais de 1 milhão de seguranças privados existentes no país.

E, diante dessa nada singela estrutura, os mais escabrosos números. A violência ceifa a vida de cerca de 60 mil brasileiros todos os anos, ao passo que apenas 8% dos homicídios são elucidados5. Os percentuais de elucidação de crimes contra o patrimônio chegam a ser desprezíveis.

Mesmo a Polícia Federal, enxergada pela sociedade como uma ilha de excelência em razão de suas notórias operações, não foge à regra. Segundo dados do Ministério Público Federal, considerados os anos de 2010, 2011 e 2012, apenas 8,3% dos inquéritos policiais serviram de base efetiva para que os procuradores oferecessem denúncias ao Judiciário, ou seja, trouxeram algo de útil enquanto resultado dos trabalhos, já incluídos aí os casos de flagrante delito. Estes, por sua natureza, de regra esgotam de pronto a investigação.

Aliás, a 7ª Câmara de Coordenação e Revisão, responsável em última instância pelo controle externo da atividade policial no MPF, já teve oportunidade de assim se manifestar acerca do método atualmente vigente: "Tem-se aqui em vista que o inquérito policial mostra-se uma ferramenta anacrônica e burocratizante, que privilegia o modelo cartorial em detrimento de uma efetiva apuração dos fatos, com o propósito de subsidiar a titular da ação penal com os elementos necessários para a formação da opinio delicti6".

As causas imediatas dessa tragédia, no que concerne especificamente às polícias, são várias. Mas não se pode perder de vista o que sempre as permeia: a concepção de polícia historicamente prevalente, que afasta sua atuação dos objetivos primordiais de “proteger e servir” os cidadãos; o engessamento da estrutura promovido por sua inserção no texto constitucional; os ônus políticos de toda sorte advindos de eventuais alterações efetivas no modelo, uma vez que o tema é encarado como “vespeiro” pelos governantes.

Mostras disso se veem no fato de que desde um passado próximo, resguardadas disparidades naturais de uma Federação, vêm sendo feitos vultosos investimentos nas estruturas, equipamentos, quadros e salários das corporações policiais. Se é certo que eles ainda estão longe do ideal, razoável seria esperar que resultassem em decréscimo da criminalidade, quando, em verdade, acontece o oposto.

As polícias militares ressentem-se primeiramente do próprio fato de serem militares, formalmente designadas como “forças auxiliares e reserva do Exército”7. A hierarquia militar justifica-se por atender ao pressuposto do pronto emprego, momento em que não é oportuno dar aos subordinados a prerrogativa de pensar, ter escolhas. Muito conveniente num teatro de operações em que a ideia é o combate a um inimigo declarado, mas difícil de conciliar com o ideal de uma polícia “cidadã”, garantidora de direitos e imbuída na missão de servir e proteger.

A despeito da mudança formal da maior parte dos currículos das academias, o fato é que ainda hoje o policial militar recebe formação para ir à guerra.

Um paradoxo incompreensível à luz do direito comparado é não ser dada às polícias militares, que têm o maior contingente – cerca de 500 mil policiais – e o contato mais imediato com os fatos delituosos, a prerrogativa de investigar. Por força de disposição constitucional, só lhes cabem “a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública”8.

Notas
·         1.Pode-se chamar de patrimonial, em conceito singelo e algo distante de sua origem e rigor histórico weberiano, o Estado formatado jurídica e institucionalmente pelos governantes para servir a si e à pequena parcela da população que representam.
·         2.Compreendida pela maioria dos estudiosos como o momento da introdução de uma estrutura verdadeiramente policial no Brasil, através da criação da Intendência Geral de Polícia e da Guarda Real.
·         3.Conforme permissivo do Decreto-Lei nº 667/69 editado com base no AI-5.
·         4.Art. 144, Constituição da República Federativa do Brasil
·         5.Diagnóstico da investigação de homicídios no Brasil, disponível em http://www.cnmp.gov.br/portal/images/stories/Enasp/relatorio_enasp_FINAL...
·         6.Apenas 8% dos inquéritos criminais da Polícia Federal viram denúncias do Ministério Público. Blogue do Josias http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2013/06/17/apenas-8-dos-inque...
·         7.Art. 144, § 6º, Constituição da República Federativa do Brasil.
·         8.Art. 144, § 5º, Constituição da República Federativa do Brasil

7 comentários:

  1. Poliglota, antes de apoiar as politicas genocidas da esquerda, leia esse artigo que esclarece muito sobre o tema.
    http://www2.camara.leg.br/documentos-e-pesquisa/fiquePorDentro/temas/unificacao-de-policias/Texto%20Consultoria.pdf

    bravo mike

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    1. Muito bom o documento, sem dúvidas. Mas o cerne foi claro: Poder Publico X Interesse Público.

      A propósito, a matéria em lide tem o cunho informativo e de divulgação e não APOIO À POLÍTICAS GENOCIDAS DE ESQUERDA. Imaginei que quem tem tempo para ler um texto grande como o que me encaminhou também tivesse discernimento para interpretar o jornalismo,

      Abraços e boa semana,

      Poliglota...

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    2. Não disse na intenção de atacar a vossa senhoria, mas apenas como alerta das manobras utilizadas pela esquerda para ganhar mais força bélica. Ou seja, as forcas auxiliares (maior efetivo que as FFAA - em torno de 500.000 homens no Brasil) são o próximo alvo para conquista do Poder, visto que a desmoralização das Forças Armadas(por meio da comissão nacional da "verdade"), ridicularização e desmilitarização da PM/BM enseja um grande passo nesse sentido.
      Leia sobre esse objetivo: http://www.pt.org.br/wp-content/uploads/2015/04/TESES5CONGRESSOPTFINAL.pdf

      Com relação a divulgação de matérias contrárias a moralidade sob pretexto "informativo", talvez não seja eu pessoa que tenha que ter mais discernimento. Com certeza o alcance do seu blog (muito bom por sinal) é um dos maiores de Brasília no que tange a segurança pública e, dessa forma, postar algo que possa dar margem sobre suas escolhas é arriscado e que põe em cheque toda sua caminhada pelos bons costumes e valores cristãos (haja vista que a esquerda no decorrer da sua história matou milhões de pessoas, incluindo cristãos - Vide Rússia, China, Cuba, Venezuela).
      No mais, parabéns pelo blog, sempre o acompanho.
      Cuidado com a falácia "vermelha"!!
      Pax Tecum
      Bravo mike

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    3. Entendi e agradeço sua assiduidade. Essa interatividade Leitor/Editor é que nos dá combustível para que possamos sempre procurar apresentar um bom trabalho.

      Grande abraço e boa semana,

      Poliglota...

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  2. É um texto bastante técnico, com referências históricas e tals. Até antes do TecSop eu ficaria perplexo com tanta informação num texto relativamente curto. Mas quer saber a real? Hoje vejo isso como chover no molhado. Podem escrever mil textos bonitos sobre a história das polícias e a contradição de quanto mais, menos - quanto mais investimento menos eficiência -, que na verdade quem manda nas polícias tá careca de saber dessa realidade. O que acontece é sempre mais do mesmo do mesmo de sempre. Nada muda. Cuidem bem das suas vidas, companheiros, e quem sair por último apague a luz. Ah, isso também já foi falado um milhão de vezes e também nunca muda.

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  3. CFSD1995 - REFORMADO15 de junho de 2015 10:10

    Tem que desconhecer bastante os PROJETOS MALIGNOS que os ESQUERDOPATAS têm para o Brasil, para ainda se falar em possibilidade de implementar um projeto da esquerda para a SEGURANÇA PÚBLICA ainda que aparentemente seja bom.

    A desmilitarização das polícias pela esquerda brasileira, não visa beneficiar as praças, por exemplo, ou a população, mas, liberar um dos últimos empecilhos para implementarem seu golpe contra a democracia, já em acelerado processo.

    Eles sabem que o treinamento recebido pelos policiais militares em todo o Brasil, já demonstrou ser eficiente contra o MST e outros movimentos violentos que eles têm, travestidos de movimentos sociais.

    A DESMILITARIZAÇÃO É NECESSÁRIA, mas pelas mãos da esquerda é um terrível engano e um salto no escuro(não para mim que conheço o que eles pretendem).

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  4. Quem está atento ao que ocorre no mundo, já viu o que ocorreu aqui pertinho na Venezuela, onde a PM foi substituída por milícias chavistas/bolivarianas. Lá, basta que o sujeito seja militante ou pró-governo para se tornar um miliciano. Por que acham que isso não poderia ocorrer no Brasil?

    Se alguém a essa altura dos acontecimentos no Brasil, com o aparelhamento da mais alta corte de justiça do país, o STF, ainda acha que o PT(esquerda) tem alguma boa intenção, ou é bem desinformado ou simpatizante dessa súcia que está no poder. Não há meio termo, infelizmente.
    Ou se é a favor do Brasil ou esquerdopata.

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